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terça-feira, 9 de julho de 2013

A busca desesperada por culpados - Opinião por Ronie de Oliveira Coimbra

A BUSCA DESESPERADA POR CULPADOS

Basta que ocorra um evento de proporções, em qualquer torrão do Brasil, para que a voracidade midiática passe a buscar culpados, ou apontar erros nos procedimentos que foram adotados pelos profissionais capacitados para solucionar o grave problema que se apresentou, e tudo o mais perde importância.
Analisem o incêndio que ocorreu no Mercado Público de Porto Alegre, pois os Bombeiros, literalmente no calor do evento, no labor para conter as chamas, já recebiam críticas quanto a capacidade de seus equipamentos, e já se apontavam defeitos no funcionamento dos hidrantes situados no entorno do prédio em chamas.
Não ouvi, por parte dos jornalistas que cobriam o episódio, elogios pelos esforços dos profissionais para conter o incêndio, cujas labaredas resistiram por mais de duas horas até que fossem extintas, ou incentivos para que o trabalho deles fosse rapidamente concluso, não obstante as dificuldades dos Bombeiros. Ao contrário, eis que em uma ânsia psicodélica na busca do erro e da distorção, veiculavam nas redes sociais até o simples pedido de empréstimo de um celular por um bombeiro, como se fosse uma deficiência insuperável da Corporação, e já indagavam às autoridades se o Mercado possuía plano de prevenção e combate a incêndio, o famoso e aludido PPCI,  e equipamentos adequados, a exemplo de extintores, para demandarem sinistros, isto, bem antes do combate ao incêndio terminar, portanto, a preocupação da imprensa, em sua maioria, não era cumprir seu papel social  de informar sobre o incêndio e o risco que dele decorria, e sim a de imediatamente encontrar supostos culpados por ele ter acontecido.
Culturalmente, de forma geral, nos comportamos assim. Não elegemos como mais importante o acerto, os esforços para resolver o problema, preferimos evidenciar o erro, a defecção, em uma apologia utópica da perfeição e da infalibilidade, coisas que não nos pertencem, e aqui está o que penso ser a questão central do meu raciocínio: procuramos sempre o culpado, e claro, quando acontece o desastre, o acidente, o sinistro, a culpa sempre será de outro alguém, jamais cogitarei que a culpa possa estar sob minha alçada, e, alinhada a esta forma de pensar, o desdém por tudo que já foi  bem feito, como se fosse invisível ao nosso olhar.
Assoma a tudo isto outra linha de pensamento do senso comum que julgo equivocada: a de que o Estado, em todas as suas instâncias (municipal, estadual e federal), é o responsável para resolver os problemas de todos; e teria que ter as capacidades divinas da onisciência e da onipresença, e mais ainda, a capacidade de profetizar os acontecimentos, em todos os lugares, em todos os momentos. Ora, o Estado é uma abstração, e, segundo o conceito clássico, é composto por território, governo soberano e povo, estes dois últimos integrados por pessoas, todas, e reputo, TODAS, responsáveis pelo bem comum.
Não quero dizer que o Estado, por seus poderes executivos, não tenha sua parcela de responsabilidade, e deve-se sim exigir reparos e culpabilidade por suas omissões e ações deletérias a sociedade, inclusive exigir que disponibilize recursos materiais e humanos qualificados para as Instituições que prestam serviços públicos aos cidadãos, principalmente aquelas que cuidam da vida, da segurança, da educação e da saúde das pessoas, mas querer que, como leviatã, seja o monstro que domina a todos e a tudo, é um exagero absurdo, eis que o povo integra o Estado, e os cidadão devem erradicar seus comportamentos omissos, de conviverem com erros e equívocos, como se invisíveis fossem, e nada fazem, não reclamam, não denunciam, não apontam, e, quando ocorre o problema se enveredam na busca desvairada de culpados, e quando, supostamente os encontram, os apontam, sem dó nem piedade, pois afinal de contas o problema não é meu, e sim, e somente,  do outro, e melhor que seja do “Estado”, este “Ente divino” que deveria nos prover e proteger de tudo.
Neste diapasão a necessidade de representação de uma coletividade ou comunidade faz emergir as associações, e estas, recorrentemente, focam na exigência de direitos. Na minha opinião a existência delas é muito benéfica, e  que continuem assim, mas que também foquem nos deveres das pessoas e atuem proativamente, que recomendem que as pessoas possam “perder” (ganhar) tempo em simulações de evacuação de prédios (exijam que as edificações que abriguem muitas pessoas, a exemplo de escolas, casas de shows, estádios de futebol, prédios públicos, etc.,  tenham um plano de evacuação)em caso de sinistros, que se disponibilizem a manipular e aprender a utilizar os equipamentos para combate a incêndios, basicamente quando de seu início, para evitar que se propagem, até mesmo porque se fala tanto que as edificações tenham extintores, saídas de emergência, mas pergunto: As pessoas sabem manipular e utilizar os extintores? Estão aptas a deixarem o prédio da forma mais organizada possível no caso de sinistro? Elas se preocupam com isto? Elas observam, identificam e apontam as defecções e irregularidades? Ou pelo menos aqueles que as representam realizam isto?
Creio, a mercê do reparo de outros posicionamentos, que aqui está um bom tema de discussão, eis que a cultura de privilegiar a busca por culpados, em detrimento da resolução do problema; de ressaltar o erro e a defecção em detrimento do que se faz de bom e dos acertos, imensamente maiores que os erros, tem que ser repensada. Claro que a busca legitima de responsáveis é saudável, mas sem este atropelo, sem este desvario, sem esta concentração de energia, sem este foco absorto, ou seja, com equilíbrio e com serenidade, e, que assumamos nossas responsabilidades também, porque afinal de contas o problema é de todos nós, quer queiramos ou não.
Ronie de Oliveira Coimbra
Major da Brigada Militar


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