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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Bicho do Diabo, por Nilton Kasctin dos Santos, Promotor de Justiça - Crônica sobre maus tratos contra animais e que dá uma ideia da falta de consciência das pessoas e do trabalho dos policiais militares para levarem a cabo ocorrências desta modalidade.


Bicho do diabo
Nilton Kasctin dos Santos, promotor de Justiça

Na avenida central da cidade, deparo-me com uma carroça de cavalo cujo carroceiro, aparentando 50 anos e muito forte, bate com toda a força com o cabo do relho na cabeça do animal. Furibundo, o homem ainda vocifera palavrões impronunciáveis ao pobre bicho. O cavalinho está caído e não reage minimamente a tamanha violência. Pelo 190, minha esposa chama a Brigada Militar enquanto estaciono.

Não me contenho. Mesmo sem a presença da polícia, decido abordar o homem, encorajado com a presença do populacho que no começo acreditei estivesse do meu lado.

- Por favor, o senhor pare de bater nesse animal – arrisquei com firmeza. Não sem antes lembrar o meu pai, que ensinava do jeito dele aos filhos homens: “nunca tenham medo de enfrentar homem que bate em mulher, criança e animal, pois ele é sempre frouxo e covarde”. Deu certo. De pronto o homem interrompe a agressão, olha para mim e justifica:

- Esse bicho do diabo não presta mais.

Focinho cravado no asfalto escaldante das duas da tarde de dezembro, esquelético, olhos fechados, o cavalinho tostado emite um gemido baixo e profundo a cada vez que expele pelas narinas bolhas de ar misturadas com sangue. De cortar o coração.

Em menos de cinco minutos do telefonema, chegam dois brigadianos, que auxiliam o carroceiro a desatrelar o animal. Como já não fica em pé nem com a ajuda de nossas mãos, o bichinho é arrastado para uma sombra, onde permanece ofegante e agora estirado no chão como morto.

Pensando em auxiliar a Polícia na comprovação técnica do crime, lembro que tenho dois amigos na cidade. Ligo para o primeiro, que é veterinário, solicitando sua presença para confeccionar um laudo dos maus-tratos. A resposta:

- Amigo velho, não posso te ajudar, pois sou concursado da Prefeitura, e esse pessoal já está de olho em mim. Se eu entrar nessa confusão, posso ser transferido de setor. Mas vou mandar um colega lá.

Ligo para o segundo amigo, um agente do Ibama em fim de carreira, que me explica afobado:

- Infelizmente não posso fazer nada, pois não disponho de bloco de multa. Isso é só com Santa Maria.

Nisso uma moça me passa os telefones de duas ONGs ambientais da cidade. Respiro aliviado, pois agora pelo menos temos onde colocar o animal até que se recupere. Ligo para a primeira, cujo responsável sai com essa pérola:

- Olha, nós lidamos mais com teoria, nossa finalidade é conscientizar a sociedade sobre a necessidade de proteção do meio ambiente, enfim, trabalhamos mais com a Agenda 21. Mesmo eu não poderia ir até aí, pois sou o responsável técnico (agrônomo) de uma empresa, e não posso me expor assim.

A responsável pela segunda ONG, professora universitária, já não é tão reticente:

- Nossa associação realmente é de proteção aos animais, mas é mais de cachorro abandonado. Não temos espaço para receber um cavalo.

Há quase meia hora os brigadianos anotam em silêncio as dezenas de feridas pelo corpo do animalzinho. As patas em frangalhos, todas sangram. Ferimentos recentes, do dia anterior, da semana passada, do mês passado, pisaduras dos arreios sobre feridas antigas que voltaram a sangrar etc. Uma ferida velha do lombo sangra mais copiosa. Acontece que, quando retirada a peiteira, toda remendada com pedaços de arames enferrujados, sai junto com o petrecho uma ponta de arame grosso que jazia encravada no meio da ferida.

Chega o tal colega do meu amigo veterinário. Acompanhado do advogado da Prefeitura, o homem grita quase desvairado:

- Isso é uma pouca vergonha, me tirarem do serviço por causa de um matungo velho, um bicho inútil!

Mas a fúria do médico de animais é aplacada de repente, quando o matreiro causídico sussurra algo em seu ouvido. Agora manso, mas inspirado na mesma ética pessoal suja e torta, o veterinário me diz:

- Me desculpe, doutor, não sabia que o senhor é Promotor!

Mas o pior está por vir. Desce de um carrão bonito uma senhora grisalha, polida e bem falante. Uma protetora dos animais, julgo esperançoso. Não. Mas bem religiosa; fala em Deus a todo instante.

- Gente, pelo amor de Deus, eu conheço esse coitado, é um homem de Deus, um pai de família trabalhador, sempre faz frete para mim com essa carroça.

Seguem aplausos efusivos da claque.

Com a notícia de que o cavalinho deve receber folga até que se recupere, a mulher passa a recolher dos presentes doações em dinheiro para o sustento do agressor, que é visto bebendo num bar no fim da tarde.

Bicho do diabo! Bicho inútil! Isso ainda me martela na alma. O homem também é um bicho. De Deus?

Assista o Vídeo Institucional da Brigada Militar

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